sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Garçonete

(#A Certain Romance – Arctic Monkeys)

Estava olhando pra ela, sinto que podia fazer isto a qualquer hora, mas não a todo tempo, não quero cogitar a possibilidade de enjoar. Ela e seu corpo moreno, atiçando elogios ora bem canalhas e, em minoria, ora meio líricos. Nunca fui de observar o corpo de uma mulher por detalhes, ou pelo menos não me dei ao trabalho de me torturar com isso.

Ela sempre me atende bem, mas a verdade é que sinto uma vontade ainda controlável de deixar algo cair propositalmente, pra que ela me mostre o que tem de melhor em um ângulo mais favorável.

(#Glory Box – Portishead)

O seu nome vem no crachá, me poupando de uma investida mais clássica de perguntar o nome – Ana; um nome pequeno que combina com seu jeito mas desvirtua em comparação às suas medidas. E se ela esquece esse maldito crachá um dia que seja, eu conseguirei me introduzir de forma educada. É claro que não quero esperar pra que isso aconteça, ainda mais com essa cara de responsável e dominadora que ela tem, minhas esperanças se pulverizam. Provavelmente é a última garota com esse credencial em duas áreas: aptidões corporais e psicológicas. Não deve mais existir dessas, e se existir, nenhuma substituiria ela e eu não me puniria por negar deixar qualquer coisa ser exercida pela linda força peso com a finalidade de uma futura análise da sua respectiva bunda saliente.

(#Down in Mexico – The Coasters)

Eu poderia amá-la, também. Mas ela teria que se acostumar, por muito tempo eu não coloquei esse verbo em prática, e talvez demore muito (provavelmente até que ela se canse) para dizer que a amo. Mas ela é amável, sim. Ela e essa...

- Você deixou cair esta caneta.   

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Atendimento

É bem nesses momentos que eu prefiro testar uma das minhas habilidades: abster a minha mente de mim mesmo para que ela, com seu passe livre, passeie por qualquer horizonte.

(#Chick Habit – April March)

Estou na fila de espera pra atendimento, em um supermercado. Uma fila que cresce há mais de vinte minutos atrás de mim. Esqueci que é início do mês e a carne e o leite estão em promoção – tudo o que o planejamento de uma família de classe média almeja. Merda, e eu nem vou comprar um desses intens.

(#Did You See The Words – Animal Collective)

Ainda bem que eu achei esse carrinho de compras pequeno no meio dos corredores, pelo menos não sinto a dormência terrível que esses sacos de ração me causariam nos braços. Odeio quando isso acontece, a dormência, odeio essa sensação de impotência, de que eu não consigo mexer algum membro meu. Tem gente que ri da sensação, acha bom; eu não acho bom nem quando eu tenho o mecanismo normalizado, me irrita saber que por um momento perdi o controle. Ainda bem que peguei o carrinho.

(#Ambulance – Blur)

Agora, esses cinco sacos de ração me fazem companhia. Deve ser a companhia mais cara que eu já tive que pagar, não, não a mais cara é pra quem essa ração será destinada. Não sei como agüentam comer isso, tem gosto de areia com merda, não, melhor: barro com merda. Mas dizem que é necessário, tem as vitaminas de interesse do processo de metabolismo. Coitados.

(#Ambulance – Blur (pause))

- Só isso mesmo, senhor?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Na Rota de Norte a Sul

Regularmente este é o ambiente que eu freqüento.

(#Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lókis? – Arnaldo Baptista)

Estou em um ônibus que percorre do norte ao sul dessa cidade – Manaus. Deve estar uns 37°C lá fora.

Uma coisa que eu fico me perguntando é qual será a rota do ônibus depois que eu descer, depois que eu passar por aquela porta e pronto, pagar a passagem até ali e nada mais esse transporte público me deve. Fico pensando nisso, onde cada um daqui vai descer, se tem algum bandido disfarçado no ônibus ou se ainda entrará algum e vai render o ônibus com um assalto, seqüestro, não sei... Ninguém sabe. E se haverá vítimas, se o rapaz só causará gritarias e os comentários distorcidos depois. E no outro dia (ou no mesmo dia), quando eu ficar sabendo do ato, eu fico pensando se eu acreditaria que o rapaz agiu depois que eu desci por puro milagre, porque Deus me abençoou, por destino. Talvez.

(#The Dead Flag Blues – Godspeed You! Black Emperor)

Outra coisa que me passa pela cabeça é a procura das pessoas por um lugar bem na frente, bem perto da porta, bem perto do motorista, e principalmente, bem perto do ar condicionado. Perto das palhetas que tem a intenção clara e bem útil de propiciar um clima mais frio e agradável do que naturalmente esta cidade nos dá. O que provavelmente não passa pela cabeça delas é a o problema causado pela quebra brusca de temperatura. Estão do lado de uma porta que abre a cada, pelo menos, sete minutos e embaixo do aparelho de ar condicionado. Uma corrente ar frio (super frio), depois abafada por uma quente (super quente). A física ou a biologia devem explicar isso, ou ainda as duas juntas – eu só sei dizer que existe alguém bem melhor que eu pra explicar isso. E enquanto a parte de trás do ônibus, com quase nenhum ser “respirante” abriga um clima agradável, por não ter mais o trabalho de quebra de temperatura. Conheço gente que disse que já viu gente morrer assim: choque térmico, estava com o corpo quente e foi beber água gelada. Assim, bem assim.

(#Declare Independence – Björk)

Mas quem deve sofrer mesmo é o motorista e o cobrador, por isso não hesito em sempre dizer “boa noite”, “boa tarde”, “bom dia” e “obrigado”. Eles fazem a mesma rota todos os dias e por várias vezes. São várias correntes de ar frio, quente, quebra de temperatura, choque, palavrões, passadas de informações, passadas de reclamações. E naqueles intervalinhos de uma rota e outra, ainda alimentam a ilusão de que precisam hidratar seus corpos cansados de atividade com a tal da água gelada.

(#Reena – Sonic Youth)
(#Incenerate – Sonic Youth)

O suor: ele não serve pra cá. Aqui não tem brisa alguma. É inútil a posição natural dos nossos corpos de liberar água, crente que alguma brisa se quer ira levantar nossos pêlos e fazer com que o suor refresque-nos. Ainda bem que temos os aparelhos de ar-condicionado.

Ah, pois que se dêem bem com seus corpos quentes, que deixem esse mundo para que as baratas herdem.