segunda-feira, 5 de julho de 2010

Na Rota de Norte a Sul

Regularmente este é o ambiente que eu freqüento.

(#Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lókis? – Arnaldo Baptista)

Estou em um ônibus que percorre do norte ao sul dessa cidade – Manaus. Deve estar uns 37°C lá fora.

Uma coisa que eu fico me perguntando é qual será a rota do ônibus depois que eu descer, depois que eu passar por aquela porta e pronto, pagar a passagem até ali e nada mais esse transporte público me deve. Fico pensando nisso, onde cada um daqui vai descer, se tem algum bandido disfarçado no ônibus ou se ainda entrará algum e vai render o ônibus com um assalto, seqüestro, não sei... Ninguém sabe. E se haverá vítimas, se o rapaz só causará gritarias e os comentários distorcidos depois. E no outro dia (ou no mesmo dia), quando eu ficar sabendo do ato, eu fico pensando se eu acreditaria que o rapaz agiu depois que eu desci por puro milagre, porque Deus me abençoou, por destino. Talvez.

(#The Dead Flag Blues – Godspeed You! Black Emperor)

Outra coisa que me passa pela cabeça é a procura das pessoas por um lugar bem na frente, bem perto da porta, bem perto do motorista, e principalmente, bem perto do ar condicionado. Perto das palhetas que tem a intenção clara e bem útil de propiciar um clima mais frio e agradável do que naturalmente esta cidade nos dá. O que provavelmente não passa pela cabeça delas é a o problema causado pela quebra brusca de temperatura. Estão do lado de uma porta que abre a cada, pelo menos, sete minutos e embaixo do aparelho de ar condicionado. Uma corrente ar frio (super frio), depois abafada por uma quente (super quente). A física ou a biologia devem explicar isso, ou ainda as duas juntas – eu só sei dizer que existe alguém bem melhor que eu pra explicar isso. E enquanto a parte de trás do ônibus, com quase nenhum ser “respirante” abriga um clima agradável, por não ter mais o trabalho de quebra de temperatura. Conheço gente que disse que já viu gente morrer assim: choque térmico, estava com o corpo quente e foi beber água gelada. Assim, bem assim.

(#Declare Independence – Björk)

Mas quem deve sofrer mesmo é o motorista e o cobrador, por isso não hesito em sempre dizer “boa noite”, “boa tarde”, “bom dia” e “obrigado”. Eles fazem a mesma rota todos os dias e por várias vezes. São várias correntes de ar frio, quente, quebra de temperatura, choque, palavrões, passadas de informações, passadas de reclamações. E naqueles intervalinhos de uma rota e outra, ainda alimentam a ilusão de que precisam hidratar seus corpos cansados de atividade com a tal da água gelada.

(#Reena – Sonic Youth)
(#Incenerate – Sonic Youth)

O suor: ele não serve pra cá. Aqui não tem brisa alguma. É inútil a posição natural dos nossos corpos de liberar água, crente que alguma brisa se quer ira levantar nossos pêlos e fazer com que o suor refresque-nos. Ainda bem que temos os aparelhos de ar-condicionado.

Ah, pois que se dêem bem com seus corpos quentes, que deixem esse mundo para que as baratas herdem.

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